Como escrever um livro – 3 Pilares do Worldbuilding


Como escrever um livro – 3 Pilares do Worldbuilding

Vamos simplificar a criação de mundos em livros de ficção especulativa, falando dos três pilares do Worldbuilding

Os Três Pilares do Worldbuilding - Imagem destacada

Worldbuilding é algo exclusivo para livros de fantasia e ficção científica.

Esta é uma afirmação que vejo com frequencia em artigos e vídeos sobre o tema, em livros e redes sociais. Eu a considero errada, e vou dizer porque: todos os livros escritos em prosa, precisam de Worldbuilding.

Vai escrever um romance policial? Um romance romântico? Você precisará sim, de criar um mundo para sua história. Pode não ter magia e seres de outra dimensão. Mas será um mundo novo.

Se você criar uma cidade fictícia, ou um comércio que não existe no mundo real, estará trabalhando o Worldbuilding. Por isso é importante entender esse processo tão minucioso e excitante.

Já falei demais. Vamos de fato ao que interessa.

Neste artigo você aprenderá os três pilares do Worldbuilding e mais:

  • O que é Worldbuilding
  • Porque meu livro precisa de Worldbuilding
  • Exemplos de ótimos mundos de fantasia
  • Os três pilares do Worldbuilding
  • Personagem na construção do Worldbuilding
  • Ambiente na construção do Worldbuilding
  • Tempo / Tecnologia na construção do Worldbuilding

O que é Worldbuilding

O que é Worldbuilding
O que é Worldbuilding

Worldbuiding é o termo em inglês para criação de mundo. Filmes, séries, games e, claro, livros, utilizam muito esse recurso na elaboração de histórias ficcionais.

A criação de mundo é algo que abrange todos os estilos. Desde sitcoms, passando por romances, filmes de ficção científica, livros de fantasia, games de zumbis. Tudo que conta uma história, teve um dedo de worldbuilding em sua concepção.

É claro que, de acordo com o projeto, o investimento de tempo e recursos na criação de um mundo é maior ou menor. Trazendo isso para a literatura, se você vai escrever sobre um romance adolescente que acontece no seu bairro, quase não terá trabalho de worldbuilding. Porém, se seu livro mexe com outras dimensões, mesmo que a maioria da história se passe em uma cópia do mundo real, como em Stranger Things, vai gastar mais tempo criando o mundo.

Porque meu livro precisa de Worldbuilding?

Porque meu livro precisa de Worldbuilding
Porque meu livro precisa de Worldbuilding

A resposta é simples, porque você está criando um mundo novo.

Mas minha história se passa no mundo real, você pode dizer. Está quase certo. Se sua história retrata nosso mundo, ela se passa em uma cópia do mundo real. Um mundo onde mudamos algumas coisas. Criamos casas que não existem; ruas e bairros fictícios; comércios e escolas. E tudo isso retrata mais do modo como você, autor, vê o mundo, do que a maneira como o mundo realmente é.

É lógico que quanto mais magia inserimos em um mundo (e aqui utilizo o termo magia para tudo que não existe no mundo real, mesmo que seja alta ficção científica ou um mundo sem os Beatles como o filme Yesterday), mais trabalhado será nosso worldbuilding.

Ao entender os três pilares do worldbuilding, dos quais logo falaremos, desenvolver suas histórias ficará bem mais fácil.

Exemplos de ótimos mundos de fantasia

Exemplos de ótimos mundos de fantasia
Exemplos de ótimos mundos de fantasia

Eu poderia ficar o resto do artigo listando mundos maravilhosos criados por mestres do worldbuilding. Mas vou me segurar e trazer apenas três exemplos.

Percy Jackson

Sou suspeito ao falar de Percy Jackson. Amo demais essa série. Foi ela quem me levou a ser escritor.

Aqui temos um cenário incrível de fantasia urbana. Deuses da mitologia grega adaptados a vida moderna. Zeus usando terno risca de giz. Poseidon usando bonés de pescador. Sátiros usando camisetas com frases motivacionais contra a exploração da natureza.

Vemos regras inteligentes, como semideuses não poderem usar celular, pois as ondas do aparelho atraem monstros. Coisas simples, que ajudam a criar um mundo incrível para histórias fantásticas.

Mistborn

Uma obra-prima de criação de mundo e sistema de magia. O mestre Brandon Sanderson nos brinda com um universo diferente de tudo que você já viu.

A magia funciona a partir de metais. Um usuário pode ingerir o metal ou usá-lo fincado na pele. Porém, os dois tipos de magia não são compatíveis. Então não adianta tentar engolir o tipo de metal que se finca na pele; ou usar na pele o tipo de metal que se engole.

Os seres místicos também utilizam metais para ter consciência. E é possível dar poderes a indivíduos que nasceram sem eles, através de processos horríveis.

O mundo vive em constante chuva de cinzas. Não há coisas que existem no nosso mundo, como a chuva que conhecemos, plantas, flores e árvores.

E tudo isso tem o seu porque, que é explicado detalhadamente durante os três livros da trilogia. Não de um jeito enfadonho, mas de forma magistral.

Matrix

A imaginação foi às alturas nesse universo.

Em Matrix, a maioria das pessoas, através de sonhos, vive em um tipo de mundo ilusório criado por máquinas. Quando alguém é despertado, descobre que tudo que viveu foi mentira. E que o mundo real é um pesadelo onde as máquinas querem destruir toda a resistência humana que ainda existe.

Etherion

Sim, eu falei que seriam três. Foi mal, não me aguentei.

O cenário de Etherion é um ambiente que criei para muitas de minhas histórias. É um mundo semelhante ao nosso, mas que é dividido em 9 dimensões. A principal dimensão é uma cópia da nossa, que se chama Midgard, onde vivem pessoas como eu e você.

Alguns livros meus, como A Filha do Tempo (com foco em mitologia e folclore) e A Agulha Escarlate (com foco em seres sobrenaturais), foram escritos nessa cópia da nossa Terra, ambas fantasias urbanas.

Muito do que se fala sobre worldbuilding em fantasia e ficção científica está relacionado com sistemas de magia. Se quiser saber mais sobre isso, recomendo este vídeo onde falo sobre o tema no meu canal do YouTube:

Os Três Pilares do Worldbuilding

Os Três Pilares do Worldbuilding
Os Três Pilares do Worldbuilding

Existem três pilares que toda criação de mundo se apoia. São eles: personagem, ambiente e tempo (ou cronologia).

A ideia é de que, a partir de um desses três elementos, você consiga desenvolver o restante do seu worldbuilding e criar histórias fantásticas, ou de outros gêneros.

O ideal é que você escolha um dos pilares e o desenvolva. A partir dele você irá desenvolver os outros dois.

Criando Worldbuilding a partir do Personagem

Personagem
Criando Worldbuilding a partir do Personagem

Sim, como você eu também torci o nariz quando vi que um dos elementos principais do worldbuilding era personagem. Mas depois que estudei o conceito, ficou bem fácil de entender.

A ideia aqui é você desenvolver um personagem, como você faria normalmente. A partir das ações do personagem, da sua rotina, e dos eventos que você relaciona a ele (ou que tem impacto direto na vida dele), você desenvolve seu worldbuilding.

Vamos pegar o exemplo de Harry Potter.

Harry é uma criança bruxa, filha de dois bruxos que morreram quando ele era um bebê.

A partir dessa frase, temos algumas informações. Harry é uma criança bruxa, então bruxos existem nesse mundo. Como eles vivem? De onde vieram? Como é sua interação com os não bruxos?

Filho de dois bruxos. Quem eram seus pais. O que faziam para viver? Trabalhavam entre não bruxos ou a sociedade bruxa é organizada e evoluída ao ponto de ter a necessidade de um emprego? Como e onde se conheceram? Eles têm parentes vivos?

Morreram quando ele era bebê. Pela frase, entendemos que ele não é mais bebê. Quantos anos ele têm? Com quem tem vivido desde a morte dos pais? Ele tem poderes bruxos? Se sim, quais? Como seus pais morreram?

Viu quantas perguntas podemos tirar dessa única frase? E a partir das respostas, montar o worldbuilding da história?

Criando Worldbuilding a partir do Ambiente

Ambiente
Criando Worldbuilding a partir do Ambiente

Aqui falamos geograficamente. Como é o lugar onde a história se passará? As cenas ocorreram em mais lugares?

Existem duas abordagens para construir mundos a partir do ambiente:

Bottom-up

Você começa com algo pequeno. Uma casa, uma rua, um bairro. E vai acrescentando informações sobre o mundo a medida que vai incorporando elementos que estão ao redor: florestas, rios, oceanos, vales, montes, outras cidades, reinos, continentes, mundos e etc.

Por exemplo, vou fazer uma pequena descrição do cenário da primeira cena de ação do meu livro Lâminas e Corações:

Um salão de trino oval, com uma grande janela de vidro que deixava o local bem iluminado. Existia um círculo central onde as lutas aconteciam. Esse círculo era cercado por uma grade de um metro, e colunas a cada três metros. O salão ficava na Academia da Ordem Samurai, no Bairro Alto da Cidade do Oriente, onde os filhos dos nobres do Império Oriental estudavam para se tornarem samurais, os protetores do imperador e das famílias nobres que governavam o império.

Nos fundos do salão, há um descampado que faz divisa com o Bairro Médio, onde vivem principalmente os comerciantes e artesãos. Na avenida principal do Bairro Médio, fica a Feira ao Ar Livro, principal ponto comercial e turístico da cidade, embora gaijins (pessoas de outros reinos) não fosse bem-vistos em nenhum lugar do Império Oriental.

O Bairro Médio é também o lugar em que os ninjas patrulhavam. Era uma força reconhecida pelo império, embora fosse odiada pelos samurais. O propósito dos ninjas era defender a população comum, pessoas que os samurais achavam indígenas de proteção. Por isso os ninjas eram a lei no Bairro Médio e no Bairro Baixo, onde os menos favorecidos e os que não cumpriam as leis, faziam sua morada.

Esse meu livro, Lâminas e Corações, conta a Segunda Era de Etherion, o cenário que mencionei antes, cheio de mitologia e folclore. Etherion é uma dimensão da Terra, então tem o mesmo tamanho dela. A Cidade do Oriente é algo bem pequeno comparado ao tamanho da dimensão. O salão, primeiro contato do leitor com a ambientação do livro, nem se fala.

Top-down

Nessa abordagem você faz o inverso. Começa pelo macro, trabalhando o maior ambiente, e vai aos poucos descrevendo os microambientes. Para você ter uma ideia, leia O Silmarilion de Tolkien. Você verá o processo de criacionismo do autor de O Hobbit e O Senhor dos Anéis, desde quando o Deus Criador fez os “anjos”, ou deuses menores, e como eles tiveram influência no mundo em que aconteceram os eventos que abalaram a Terra Média.

Vou deixar aqui este link para você conhecer o top-down de Etherion, cenário das minhas histórias. Espero que fique claro como utilizei o mesmo conceito de Tolkien, mas trabalhando as 9 dimensões da Terra fictícia do meu universo.

Os Legados de Etherion – Codex para Semideuses

Criando Worldbuilding a partir do Tempo / Cronologia

Tempo
Criando Worldbuilding a partir do Tempo / Cronologia

Essa é uma das maneiras mais divertidas de trabalhar o worldbuilding. Aqui você irá listar acontecimentos importantes do mundo da sua história.

Fará realmente uma linha cronológica. E, como em ambiente, você pode usar as estratégias top-down (listando os eventos desde o macroambiente até o microambiente) e bottom-up (listando os eventos do microambiente até o macroambiente).

Exemplo:

  • Guerra entre Reino A e Reino B
  • Destruição do Reino B
  • Constante migração do povo que vivia no Reino B, e se tornou nômade
  • Nômades encontra um lugar de natureza selvagem, sem sinais de vida humana
  • Construção da Vila Nômade
  • Primeiro viajante chega a Vila Nômade
  • Primeiro casamento de um estrangeiro com um nômade
  • Nascimento do primeiro nômade com magia
  • Crescimento da Vila Nômade
  • Ataque do Reino A
  • O jovem com magia salva a vila
  • O jovem com magia se torna o primeiro Prefeito
  • A Vila Nômade cresce para Cidade Nômade
  • Novos usuários de magia chegam a vila

Esse foi um exemplo que pegou algo macro, como a guerra de dois reinos, e listou eventos que levaram a construção de uma vila, e o crescimento dessa vila. Nossa história poderia ser sobre o jovem que se tornou rei. Ou sobre a mulher que organizou o povo para fugir do Reino B e se salvar. Poderia ser sobre qualquer personagem que imaginássemos em algum desses eventos. Cada evento poderia ser um conto ou uma novela.

Conclusão

Os três pilares do worldbuilding podem mudar sua maneira de trabalhar a criação de mundos da sua história. Como consequência, te dará mais ferramentas e recursos para trabalhar sua história.

Lembre-se de escolher um dos pilares para começar. A partir dele, você desenvolve os demais. Assim você não fica perdido sem saber onde está no worldbuilding da sua história.

Rod Zandonadi (eu) é escritor de literatura de fantasia, adora podcasts, ama animes, séries e filmes da Marvel/DC. Sabe que um bom café é fundamental para um dia agradável, de preferência com mel. Além deste site, ele às vezes passa pelo blog do Luís Storyteller e no podcast Bardos de Litfan. Você pode encontrar meus livros na Amazon: https://amzn.to/2JZba8R E se quiser conhecer mais do meu trabalho: Wattpad - https://www.wattpad.com/rodzandonadi Blog Crônicas de Etherion - https://medium.com/cronicas-de-etherion

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